quarta-feira, 16 de maio de 2012

Eu Leio as Figuras #3


Que todo homem consiga a sua Ela





"O velho e os moços"

"Estar lá em baixo é uma sensação boa. Cresci, amadureci e fiquei velho e hoje me dou conta de que não experimentei lá muitas sensações boas. Quer dizer, é claro que vivi todos os sentimentos que alguém da minha idade pode ter vivido. Sorri e chorei. Acho que chorei mais do que sorri, por isso penso que talvez eu devesse ter feito escolhas melhores. Mas os sorrisos foram sempre dos bons. Tão bons que eu consigo me lembrar de quase todos. Não dos sorrisos em si, sabe, isso seria impossível, mas dos momentos. Eu me lembro de todas as alegrias da minha vida, talvez porque tenham sido tão ínfimas, tão efêmeras. Todas tiveram valor. Sempre fui um sujeito saudosista, recordo do passado como que puxado por uma corrente de melancolia.

Nós visitamos a praia com frequência e eu reparo nas pessoas que também frequentam esse lugar. A maioria é sorridente e jovem. Lanchas e pranchas, bermudas e bikinis da moda, óculos escuros e dentes brancos. Carros do ano estacionados lá no calçadão. Às vezes me pego imaginando que são eles, os jovens banhistas, a razão que nos traz aqui. Eles nos fazem lembrar-nos de nossa própria juventude, da inconsequência por trás de todos aqueles sorrisos e eu acabo por recordar aqueles poucos e bons momentos de minha longa vida em que eu fui daquele jeito. Ela, certamente, concordaria com essa justificativa, a de que estamos aqui pra nos sentirmos jovens.

Eu, de minha parte, não sei se concordo. Eu adoro mergulhar. Adoro sentir a grandeza do oceano me cobrindo completamente, como num abraço da natureza em si. Eu gosto de estar lá no fundo, comprimido pelo infinito. É um bom desprendimento, um desapego momentâneo de tudo que é humano. É uma constatação de que tanto eu quanto Ela somos insignificantes, de que todos aqueles jovens lá na areia e seus sorrisos não significam absolutamente nada diante da existência em si.

Mergulho e fico lá em baixo por minutos a fio. Sempre tive bons pulmões, fôlego nunca me faltou e acho que isso tem alguma coisa a ver com o fato de eu estar vivo até hoje. Eu tive fôlego pra continuar, enquanto muitos dos meus velhos amigos sucumbiram às dificuldades do mundo. Não posso culpá-los.

Mergulho. E as lembranças vêm com as ondas, suaves e mornas apesar do tempo nublado. As águas estão sempre mais quentes quando não tem sol. Me sinto jovem e Ela sabe disso. Acho que também se sente, deve ter lá as suas lembranças também, tão íntimas que nem mesmo eu conheço. 

Mergulho. Revivo o passado e as vozes das crianças lá na praia, que parecem penetrar nas águas densas e chegar até mim me fazem ter certeza de que fiz mesmo mais escolhas erradas do que certas. Porque, em todos os meus poucos e memoráveis sorrisos, eu nunca sorri daquele jeito, nunca tive tantos amigos, nunca compartilhei minha vida com mais do que um punhado de pessoas próximas. Invejo-os e então o fôlego me escapa e eu torno a subir. Respiro e me viro para trás, apenas para ter certeza de que Ela ainda está ali. E ao vê-la, a inveja logo sai de cena, dando lugar a uma esperança profunda e genuína de que todos aqueles jovens inconsequentes e felizes lá na praia tenham motivos para voltar à superfície, quando chegar as suas horas de mergulharem. Eu só tenho um e não trocaria Ela por nada.

2 comentários:

Luciana Souza disse...

Oi Alexandre
Eu estava sentindo sua falta, sinceramente, seus textos são ótimos, é muito bom ter uma pessoa em nossas vidas. Talvez sua história seja apenas uma ficção, mas no meu último post contei minha história com a do meu marido, é real, eu fui abençoada em ter Ele.
Bjos. e um ótimo final de semana
http://ashistoriasdeumabipolar.blogspot.com.br/

Kelvya Pyres disse...

adoro ler esses tipos de textos. eles me fazem querer ler em voz alta, e quando o faço, mal escuto minha voz, é com se fizesse uma pequena viagem para a cena, ou para aqueles pensamentos que parecem estar adormecidos. parece estranho admitir, mas sinto uma sensação boa.