segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

[ a veia punk ]

Todo mundo tem uma veia punk. O padre na igreja que parece um santo e aparentemente nunca falou nada mais alto do que o “amém” no fim de cada oração. A virgem que freqüenta os cultos do tal padre todos os domingos. Eu. Você.
É tudo uma questão de se soltar.
Deus criou Eva a partir da costela de Adão e deu aos dois uma veia punk. Eu descobri a minha tem umas duas semanas.
Estávamos eu e mais dois camaradas num dos mais famosos carnavais do Brasil, dividindo um Lucky Strike e uma garrafa de “Vod-cola”, de pé, a observar a multidão saltitante que se espalhava pela rua. Eis que três mulheres surgiram na nossa frente falando alto, gesticulando. Estavam de costas pra nós. Imediatamente ( não nos culpem, era carnaval), após uma breve análise dos três espécimes a uns passos de nós, decidimos que não valeria a pena uma investida para conhecê-las.
“Por que?” – me perguntam.
Bom, a resposta é simples. Eram feias. Não, eram muito feias. Desengonçadas, de cabelos desgrenhados, bêbadas.
“Mas era carnaval” – argumentam.
É verdade. Se fossem desengonçadas, de cabelos desgrenhados, bêbadas e bonitas... O espírito carnavalesco correria solto, mas infelizmente, não rolou. Não que estivéssemos nos achando grande coisa. Não sou lá nenhum Brad Pitt. Aposto que pra muitas mulheres naquela noite (e tive provas disso), nós é que éramos os peixes-bois desengonçados, bêbados e feios. Mas a vida é assim. Perde-se uma pra ganhar duas na frente.
Pois bem, lá estávamos nós a fumar e a beber, tentando enxergar através das bêbadas, quando percebemos que elas aproximavam-se de nós, como que de forma despretensiosa, ainda de costas. Nós trocamos olhares. Um amigo levantou a sobrancelha, desconfiado.
“Bartucada” bombando na madrugada e elas estavam cada vez mais perto.
Cautelosamente, demos uns passos pra trás e o óbvio aconteceu: elas aproximaram-se ainda mais.
Momentos depois, uma delas virou-se sorridente, saltitante, feia. Apontou pro cara do meio (eu) e fez um sinal com o dedo indicador ( aquele que fazemos pra chamar alguém pra perto de nós ).
Eu, tímido, retribuí com outro sinal: balancei as mãos e a cabeça gentilmente, em negação.
Foi então que a moça comentou alto pras colegas:
“Frouxo”
Se aquele cenário fosse um filme, os espectadores poderiam ouvir as palavras saindo da boca da fêmea, numa tomada em close, seus dentes amarelados mostrando-se e escondendo-se atrás dos lábios pregados, a voz engrossada pelo efeito de “câmara lenta”:
“FRO - U - XO”
Tudo ao redor diminuiria de velocidade, para dar ênfase à resposta que se seguiu ao comentário feito por ela, numa fração de segundo:
“Feia”.
Não me batam, mas foi isso que eu respondi. Ela, que sorria vitoriosa, murchou como uma lesma no sal, me encarou brava de relance e puxou as amigas feias pra longe.
Os dois ao meu lado entreolharam-se por um momento e depois caíram na gargalhada. Eu nem sabia o que dizer. Não queria ofender a menina, mas fazer o quê.
É a veia punk.

Um comentário:

Bruno disse...

hahahahaha
Po Alexandre, numa dessas vc pode ter acabado com o Carnaval da menina.
Em outros tempos teria feito o mesmo que você, mas hoje em dia prefiro pregar a paz entre as pessoas. Daria um sorriso e um 'jóia' pra ela.
Sei.

hehehehehe