terça-feira, 20 de março de 2012

Da série: eu leio as figuras #2








Valeu, Zé!! Estamos lendo sempre, tudo. Você manda e a gente lê as figuras!


Essa fotografia sensacional é parte da obra de um cara chamado Felipe Morozini. Infinitas leituras tiramos dos ensaios do cara.


Eu leio:




O mundo tem muitos problemas, tantos que não dá pra contar. Era nisso que ele pensava enquanto olhava pra cidade através da janela, depois de um longo dia no escritório. Acreditava na simetria. No planejamento. Foi assim que conseguiu sair da sombra dos pais ricos e trilhar um caminho próprio. Conhecia muitas pessoas com famílias como a dele, que não conseguiam cortar o cordão umbilical. Se orgulhava de tê-lo feito. Era um jovem e ganhara o mundo. Mas o que a perda do abrigo de casa lhe mostrara era que o mundo era um lugar difícil. Muitas vezes, a simetria que funcionava bem no escritório - refletir, planejar, executar - não funcionava do lado de fora. A selva tinha suas próprias regras. Dois anos morando naquela metrópole faminta, que consumia anos, sonhos e a inocência das pessoas. De repente, ele se deu conta, através daquela janela, que vivia num mundo monocromático. De repente, não só as construções pareciam ser feitas do mesmo concreto frio, mas também os sonhos: tinha de ganhar dinheiro para consumir. Consumia para sentir a saciedade que, na verdade, não dependia de bens. De que adiantava aquele carro do ano que tinha acabado de financiar se não tinha um amigo de verdade sequer?

Sim, a esmagadora visão da cidade, tão bela quanto assustadora, o fez pensar nas simetrias. E a simetria do mundo consistia no preço que se pagava pelo que se conquistava ou pelo que se deixava de conquistar. O seu preço era uma rotina ingrata de nove às cinco, que consumia toda a sua energia e o fazia se sentir como um robô. 

Pensava em como todo um país poderia ser traduzido pelo que via através daquela janela, gerações vivendo como robôs. Contemplando aquela liberdade amarga, lembrou-se de seu pai e de como o velho lhe dizia que ele poderia mudar o mundo com a sua mente. Que o pensamento era tão poderoso quanto o cosmos inteiro. Que o Universo precisava dele tanto quanto ele dependia do Universo. Era a simetria. O macro como um reflexo do micro. E vice-versa. 

O mundo era cinza e asséptico e por isso, não era a fumaça que lacrimejava seus olhos. Chorava porque sabia que o cinza frio e impessoal lá fora era apenas um reflexo de seu próprio interior.


E você, o que lê?


;)

10 comentários:

Débora Sader disse...

Nossa, não só amei o seu texto, como fiquei realmente refletindo nas suas palavras muito bem colocadas. É de impressionar a sua sensibilidade...

Luara Cardoso disse...

Simplesmente adorei as imagens. E o texto? Muito lindo.

Um beijo,
Luara - Estante Vertical

Luciana Souza disse...

Oi Alexandre
Ótimo texto, como sempre. Sabe o que eu vejo, eu vejo que nós somos capitalistas, queremos sempre mais, gastar, comprar, ganhar mais dinheiro, mas tem coisas que o dinheiro não pode comprar. Se vc leu meu post de hoje e viu aquele momento mágico que eu descrevo quando meu filho me abraça forte e eu sinto o seu coração bater forte quando ele sente medo das ondas do mar. Esse é um dos momentos que o dinheiro não pode comprar.
Bjos. e um ótimo resto de semana.
http://ashistoriasdeumabipolar.blogspot.com.br/

Cecília Romeu disse...

Alexandre,
muito bom!
Imagem que casa com o texto com perfeição.
Um cinza da alma que se reflete para fora, através de um texto bem-descrito, reflete essas indagações do personagem e todos os "tons de cinza". Perfeito!
Beijos e ótimos dias!

MARIA CATHERINE RABELLO disse...

Oi!

Gostei do seu blog.Parabéns!

Obrigada pela visita, seguindo!
Sucesso! Beijos!

Aline Diedrich disse...

A fotografia é muito bonita e mensagem que você tirou dela, também é maravilhosa e reflexiva.

Devaneios disse...

Nossa, que profundo! Ótimo texto.
Como imagens podem inspirar, não é mesmo?
Me fez pensar em quantas pessoas vivem desse jeito, acumulando, trabalhando para poder ter dinheiro, para poder gastar, consumir.. e seus interiores ficam cinzas, suas vidas ficam monocromáticas.
Adorei.

Bruno disse...

Alexandre que bom ver o quanto sua escrita é fabulosa.
A fotografia escolhida e o texto que dela foi obtido são inspiradores e reflexivos.Parabéns!
Um Abraço!

Bruno
http://oexploradorcultural.blogspot.com

Ahtange disse...

Olá retribuindo o carinho, gostei do seu cantinho prometo voltar com mais calma.
Abraços!

Bruno disse...

Alexandre, te indiquei para responder um meme lá do blog.
Abraço!

Bruno
http://oexploradorcultural.blogspot.com