sábado, 10 de março de 2012

Sobre cafés em padarias

                                              


Eu me lembro de uma noite, quando eu era um moleque, devia ter uns 14 pra 15 anos, talvez um pouco menos. Já era tarde e eu tinha ficado acordado sozinho na sala do antigo apartamento da minha família pra assistir a algum filme. Não lembro qual era o filme, mas me recordo que tinha algo a ver com o mar e que ele deixou uma sensação em mim quando a história acabou, algo de positivo e encorajador, do tipo "vá lá e faça você mesmo", "seja alguém, agarre o seu destino".

Eu era só um moleque e aquilo me fez tão bem, conectou os meus botões e me deixou com vontade de ser alguém.

O filme tinha acabado e eu fui até a janela gradeada, ajoelhei na poltrona que ficava bem abaixo dela, debrucei sobre o vão de alumínio, nostálgico de algo que eu ainda não tinha vivenciado. Lembro que olhei pra cima e vi um monte de estrelas e, secretamente, desejei que um dia eu percorresse uma jornada tão fantástica quanto à do personagem principal daquele filme.

Eu cresci e a vida foi me lançando suas investidas, ondas suaves batendo na pedra, até finalmente começar a moldá-la. Eu percebi que a jornada daquele personagem do filme pop que me impressionara tanto na época não é nada comparada ao que acontece com gente de carne e osso, gente que não tem o charme de um James Franco e que não fala palavras que foram escritas por Oliver Stone.

Enfim, as ondas continuaram a bater e me afetaram tanto! Me transformaram num homem! Logo eu, que ainda sinto calafrios quando tenho que falar em público e que ainda hesito milhares de vezes antes de me aproximar de uma mulher. Logo eu que, assistindo àquele filme, olhei pro céu e desejei estar naquele mesmo mar, achando que as espumas das ondas tinham gosto de baunilha. Não têm. São águas salgadas e têm gosto de lágrimas.

Mas num dia desses, como outro qualquer, saindo do trabalho, parei numa padaria pra forrar o estômago. 

"Meia de café com leite e um maço de Luckys, por favor!" - Se naquele filme o mar parecia ter água doce e os cigarros, um gosto vazio de fumaça, no mundo em que eu vivo, a água é lágrima  e os cigarros têm um gosto de conforto.

Enquanto bebia e fumava, me peguei olhando pro céu de novo. Me dei conta de que lá estavam as mesmas estrelas, me encarando de volta.
Fechei os olhos e desejei.

6 comentários:

A. Lopes disse...

Maravilhoso o texto!
Estou feliz que tenha voltado a postar. =D

Devaneios disse...

Muito bom!

Por mais que possamos nos sentir desiludidos, não deixamos de sonhar..Até mesmo tomando um café na padaria, até mesmo sentindo a água como lágrimas, aquele moleque sonhador instiga, lembra que existe, volta à tona..

Gostei muito de seu blog.

Débora Sader disse...

Parabéns pelo blog! Estou seguindo para acompanhar as novidades!

Christian V. Louis disse...

Gostei deste seu escrito. É um conto fictício ou real? De qualquer forma, você leva jeito para a coisa e nos transporta para seu mundo, de cigarro, lágrimas e sonhos antigos que aparentemente, mesmo com a rotina, parecem nunca morrer. Ainda bem.

http://escritoslisergicos.blogspot.com

A.I.L disse...

Olá, tudo bem?!
Adorei o seu blog e, assim que puder, dá uma passadinha lá no meu? E se você gostar pode deixar comentários e me add também!!!abraços A.I.L

Palavralida disse...

Olá, Alexandre, obrigada pela visita, estarei sempre por aqui também!